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Peter Paul Rubens A Consequência da Guerra, 1637-38 Óleo s/tela 206 cm × 345 cm Palácio Pitti, Florença |
Rubens,
Detentor de um
estilo próprio, Rubens arrebata, nos seus quadros cheios de cenas complexas, cores
mais suaves revelando detalhes pormenorizados ao contrário dos seus congéneres
italianos. O seu talento foi rapidamente reconhecido alcançando um lugar de destaque
no mundo das artes do século XVII (BARROCO). Contratado pelo duque de Mântua,
Vicenzo Gonzaga, para quem passou a trabalhar com dedicação total por um período
de tempo significativo, foi conquistando prestígio na corte ganhando influência
com pessoas importantes e poderosas. Homem de confiança do duque de Mântua desempenhou
várias missões diplomáticas em Espanha e em Itália.
Rubens, que nunca
deixou de pintar, vivenciou os horrores da guerra (Guerra dos 30 anos,
1618-1648), uma série de conflitos travados sobretudo no centro da Europa,
actual Alemanha, envolvendo vários estados. Inicialmente estes conflitos
estavam enraizados numa disputa de cariz religioso entre Protestantes e
Católicos acentuando os antagonismos das duas facções evoluindo rapidamente
para contendas entre os vários principados germânicos. O Sacro Império
Romano-Germânico, católico, instrumento político da família dos
Habsburgos, perdia influência para a Alemanha Luterana e via-se ameaçada pelo
poder crescente dos Suecos e, principalmente, dos Franceses. À medida que o
conflito se desenhava as tensões religiosas agravavam-se na Alemanha, reinado
de Rodolfo II, período durante o qual foram destruídas muitas igrejas
protestantes. Este conflito devastador, talvez, o maior na história europeia,
começou com uma disputa religiosa, dita "Palatino-Boémia" (1618-1625),
numa segunda fase o conflito assumiu um carácter internacional numa altura em
que os estados germânicos protestantes buscavam ajuda no exterior contra os
católicos; o envolvimento dinamarquês (1625-1629), seguida da intervenção sueca
(1630), terminou com o envolvimento dos franceses (1635-1648) agora numa luta
pela hegemonia na Europa Ocidental, travada pelos Habsburgos e a corte de Luís
XIV, Rei Sol, recentemente empossado (1643).
É neste contexto
histórico que Rubens pintou “Consequências da Guerra, 1637-38”. Numa pincelada
gestual imprimindo movimento às formas são revelados todos os detalhes. Marte,
deus romano da guerra, que é a figura principal apresenta-se de couraça e
capacete empunhando a espada, enfatizado por uma capa vermelha, espezinhando um
livro e um desenho: símbolo da violência que a guerra impõe à cultura de
qualquer povo. A destruição protagonizada por Marte é impedida por Vénus, deusa
do amor, atraindo a atenção de todos aqueles que sofrem os horrores da guerra.
Vénus esforça-se por conter Marte e manter a paz coadjuvada por Cupido e Amors –cupido
romano- (Omnia vincit amor et nos cedamus
amori) – o amor tudo vence, numa alusão a Vergílio (éclogas X). No chão podemos
ver as setas e um ramo de oliveira que quando juntas ao caduceu significam
concórdia. Vénus é representada nua, visão clássica, suplicando melancolicamente
a Marte, num derradeiro esforço para manter a paz.
Se há características formais que
definem Rubens é a representação feminina, nomeadamente os nus. Vénus com os rolos
e colares preciosos adornando o penteado associado à nudez manifesta em formas
roliças dão configuração à mulher “rubeniana”. (Ver “O Desembarque em Marselha" de Maria de
Médicis, “O Julgamento de Páris”, “As três Graças”, “Vénus ao Espelho”, etc.).
Numa paleta harmónica, os contrastes
diferenciam-se dos pintores tridentinos atingindo uma atmosfera pictórica que
fará escola no norte europeu.
É nesta dicotomia (Guerra
e Paz) que a cena se desenrola: do lado direito a Fúria de Alecto (encarnação
grega e romana da raiva: ira implacável ou incessante[1])
arrasta Marte para o seu propósito destrutivo erguendo uma tocha. Nas trevas
podemos observar dois monstros simbolizando os efeitos da guerra, a Pestilência
e a Fome, acentuando o dramatismo onde põem em causa a Harmonia representada
pela mulher segurando em vão o alaúde, assim como o Arquitecto desesperado agarrando o compasso. No âmago deste caos uma mulher tenta salvar o filho.
Do lado esquerdo da
pintura, o Templo de Janus –deus da mudança- aparece com a porta entreaberta.
Numa referência aos poemas de Ovídio,
Fasti, era usual na Roma Antiga, o Templo de Janus ser fechado para indicar
tempos de paz, enquanto uma porta aberta indicava guerra.