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Peter Paul Rubens Desembarque em Marselha, 1622-25 Óleo s/tela 394 × 295 cm Museu do Louvre |
Maria de Médicis, a grande
banqueira.
A família Médicis era
credora de uma avultada quantia da coroa francesa (600.000 coroas). Houve contactos
entre as duas famílias. E após algumas diligências diplomáticas seguiram-se
trocas de cartas de amor, envio de retratos a óleo autenticando quão bela era a
donzela. As confidências partilhadas deixaram Henrique IV, Rei de França,
rendido aos dotes de Maria de Médicis.
Rubens retrata “O desembarque em
Marselha” (data da pintura: 1621-1625) da futura rainha de França, Maria de
Médicis, em 03 de Novembro de 1600, com toda a pompa e circunstância: os
gestos, as roupas, os detalhes de uma paleta de cores cuidadosamente
distribuída traduz a excitação e a agitação provocado por tal acontecimento.
Ao invés da tradicional composição
plástica barroca, de fazer incidir a atenção nas áreas iluminadas por oposição
ao fundo, zonas escuras, altamente contrastadas, Rubens recorre à cor vermelha,
nomeadamente a panejamentos, para deslocar a atenção para o/s “ponto/s forte/s”.
É neste jogo cromático e nos pequenos detalhes formais que a cena se desenrola,
não deixando indiferente o observador que percorre o olhar pelas sucessivas
diagonais implícitas da composição.
Paradoxalmente podemos considerar que este
quadro não é um mas, sim, dois quadros; e contrariamente a todas as regras de
equilíbrio formal, de uma pintura de paisagem, este quadro foi feito na
vertical provocando, intencionalmente, uma leitura dupla. Assim, a parte
inferior do quadro, onde as três ninfas ajudam Neptuno a encostar a Nau rivaliza,
em estatuto de primeiro plano, com o desembarque de Maria de Médicis
acompanhada em todo o seu esplendor majestoso por um homem, com elmo, vestido
com um manto azul bordado a ouro com flores-de-lis representando iconograficamente
a França. A outra mulher, com uma coroa de torres, representa a cidade de
Marselha. A deusa da Fama[1] anuncia com trombetas
douradas o desembarque da rainha em França, tudo isto no plano superior do
quadro. Contudo, Rubens apesar de ter partilhado a tendência típica da época
barroca, presente nas cores exuberantes, na riqueza dos trajes, nos detalhes
dourados, não deixou de reflectir o classicismo presenta em cenas mitológicas.
Formalmente a composição assenta em simetrias dinâmicas apoiadas em sucessivas
diagonais sublinhadas pela torção das figuras mitológicas.
Rubens imprimia à
pintura um clima de triunfo mundano, e dizia: “O importante não é viver muito, mas viver bem!”.
[1] Fama, a deusa de 100 bocas
A Fama, divindade alada,
filha de Titã e Geia, famosa na Roma Antiga, cultuada no mundo contemporâneo,
era mensageira de Júpiter, tinha a cara de louca e voava à frente do seu
cortejo, disseminando mentiras e verdades por suas 100 bocas. O poeta Virgílio
(71 a.C.-14 d.C.) a cantou como o mais rápido dos flagelos por causa de
"sua mobilidade", de onde vinham "suas forças que ela aumenta
correndo. Pouco temível, a princípio, em breve sobe aos ares e , com os pés
presos no chão, esconde a cabeça nas nuvens. Monstro horrível, voa de noite
entre o céu e a terra e nunca dorme, de dia espreita do cimo dos palácios, no
alto das torres, amedrontando as grandes cidades, semeando mentiras e
verdades".