13 de outubro de 2013

O inferno, 1515

O tempo passa, e, numa atitude de voyeur, atento ao desenlace pecaminoso assisto a um avolumar do cenário com outras insólitas personagens. Todas elas ocupavam um espaço estruturado facilmente percorrido pelo nosso olhar e perceptível ao incauto espectador. Enquanto tiro algumas notas e realizo um rápido esboço dos corpos lascivos, interrogo-me: será que tais personagens aparecem só para censurar o corpo e por conseguinte levar estes pecadores à condenação? A leitura feita por este humilde agnóstico causticando os instintos sexuais, ligando a carne ¾ corpo ¾ e o pecado, não passa de ensinamentos recebidos pela Igreja que mais não fez do que exacerbar o thanatos por intermédio da culpa.
Um sentimento de culpa omnipresente: um demónio sentado num trono, sob a vigilância atenta, adornado de penas garridas e coroa de plumas, como se tratasse de um índio brasileiro, presencia, perversamente, além do desenrolar das diversas torturas de uns tantos pecadores, bem como alguns frades a serem queimados dentro de um grande caldeirão. À medida que vão caindo novos pecadores no inferno, por uma forma circular no canto superior direito, um outro demónio arreado de penas surge do lado direito carregando outro frade para o caldeirão, deixando-nos perplexos em vislumbrar os misteriosos pecados cometidos.


Anónimo, O Inferno, 1515. 
Óleo sobre madeira de carvalho, 119x217.5 cm. 
Museu Nacional de Arte Antiga

Os sete pecados mortais: representados por figuras femininas e masculinas que estão a ser torturados por entes demoníacos. Assim, no canto superior esquerdo, três mulheres nuas penduradas numa trave, de cabeça para baixo, assam lentamente sobre um fogareiro ateado pelo fole de um demónio, representando, supostamente, a ira, a inveja e a soberba.
Distribuídos com um superior realismo, encontram-se mais três figuras masculinas nuas, agrilhoadas pelo pescoço, a serem torturados por faunos. Ao lado do fogareiro, objecto de suplício já referido, um fauno enfia moedas pela boca de um nu masculino deitado; um outro, segurando um fole de carneira, despeja o conteúdo, provavelmente vinho, por um funil que conduzirá à boca do outro pecador; por último, em primeiro plano, um terceiro fauno tortura um corpo jovem deitado em sentido inverso com a cabeça rapada e reclinada (representando a falta de dignidade e honra, característico dos que nunca se esforçaram) dando-lhe um ar sonolento e adormecido próprio daqueles que nunca experimentaram a incomodidade e o sofrimento. Cada uma delas apresenta na metodologia da tortura notas distintivas dos respectivos pecados que representam: avareza, gula e preguiça.
No lado oposto, (canto inferior direito) destaca-se uma jovem mulher nua, de longos e ondulados cabelos, gentis seios, reclinada sob o cotovelo esquerdo que repousa sobre o peito de um frade, mostrando o seu ócio com o qual se fomenta em grande parte o desejo.
Aparece, também, presa pelo braço esquerdo a um homem, o que manifesta a contagiosa libidinosidade desta figura, provocando um aumento e uma excitação da luxúria daquele que lhe está amarrado. Ostenta, ainda, um proeminente ventre símbolo do apetite concupiscente e carnal, desafiando o respeito pelas leis das instituições.
O plano destacado que esta figura assume no conjunto da composição quer pela representação estilística, quer pela interpretação iconográfica, resulta da Luxúria ser incitadora e a via de acesso ao Inferno constituindo a escola onde se aprendem todos os crimes e onde se perdem todas as virtudes. Empurrada por um fauno a Luxúria aparece como o pior dos pecados (é de salientar que o Nu ¾Luxúria ¾ aparece substantivamente na composição como o Pecado) aquele que é mais difícil dominar por contraposição aos restantes pecadores representados que, esses sim, por serem encarnações humanas aparecem dominados e castigados por diferentes formas.
A Luxúria incarna o desejo desenfreado que leva à destruição e à morte do próprio objecto desejado ¾domínio dos sentidos sobre a razão. Assim, os pecados sexuais fazem parte do mundo dos rejeitados que muito dificilmente poderiam ascender ao novo além ¾o Purgatório. O pecado da carne tem o seu território, tanto na terra como no Inferno. Na verdade, a Luxúria, segundo Jacques Le Goff, «filha do Diabo, limita-se a ser prostituta que Satanás “oferece a todos”» e o sexo continua a ser o facínora que merece o Inferno.
No Inferno (pintura) o mal está concentrado num espaço escuro, inventariado, e exibido num espectáculo de tortura quase teatral. Os pecados da Gula e da Avareza e por último da Preguiça, que são os mais censuráveis por parte da Igreja, estão associadas ao corpo, aos pecados dos homens. Enquanto que os pecados da Ira, Inveja e Soberba sendo aqueles que provêm de estados de “alma”, de condenações morais, são associados às mulheres.
O sistema dos sete pecados mortais instaura em última instância a unificação dos pecados da carne que passa a ter um nome ¾Luxúria.
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(Pintura analisada na tese de mestrado, O Corpo poiético da arte portuguesa, 2000. FBAUL)